domingo, 9 de junho de 2013

Por Rafael Oliveira


Robert Darnton em seu livro “O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa” analisa as maneiras de pensar na França do século XVIII, não mostrando apenas sobre o que pensavam as pessoas, mas também como pensavam e interpretavam o mundo. Por isso, o autor nos diz que “os outros povos são diferentes. Não pensam da maneira que pensamos. E, se queremos entender sua maneira de pensar, precisamos começar com a ideia de captar a diferença.”[1] Em seu livro, Darnton busca analisar a história das mentalidades na França, explorando visões de mundo diferentes das habituais. Tenta descobrir como as pessoas comuns organizavam a realidade em suas mentes e como as expressavam em seu comportamento. “Operando no nível corriqueiro, as pessoas comuns aprendem a ‘se virar’ – e podem ser tão inteligentes, à sua maneira, quanto os filósofos. Mas, em vez de tiraram conclusões lógicas, pensam com coisas, ou com qualquer material que sua cultura lhes ponha à disposição, como histórias ou cerimônias.”[2]
Porém, nos dois últimos capítulos, a exposição de visão de mundo vai deixando de ser vista pela visão das pessoas comuns e começa a ser cada vez mais precisa, através dos filósofos. Enquanto nos quatro primeiros capítulos o autor analisa documentos improváveis de analise histórica, como versões de contos populares, a narrativa de um massacre de gatos, a descrição de uma cidade e um curioso arquivo mantido por um inspetor de polícia, nos dois últimos ele busca entrar no mundo dos intelectuais parisienses. Assim, o autor diz ser necessário um espaço para Diderot e Rousseau em um livro sobre as mentalidades da França do século XVIII. Incluindo esses intelectuais ao lado de contadores de histórias camponeses e de plebeus, Darnton buscar abandonar a diferenciação entre cultura de elite e cultura popular, mostrando como ambos os grupos lidavam com o mesmo tipo de problema.
No capítulo um, intitulado “Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso”, o autor busca fornecer interpretações do folclore que era familiar a quase todos na França, mas especialmente pertinente aos camponeses.
Ele começa o capítulo com uma crítica à psicanálise, ao dizer que a mesma não se preocupa com o significado que os contos populares possam ter tido em outros contextos. Os contos seriam documentos históricos, pois através deles podemos perceber como a mentalidade humana mudou. O historiador deveria, portanto, buscar através desses contos, e com o apoio da antropologia, as visões de mundos particulares por trás deles. Darnton relata que, assim como todos os contadores de histórias, os camponeses adaptam o cenário dos contos ao seu próprio meio, mas mantendo seus elementos principais. “Pretendessem elas divertir os adultos ou assustar as crianças, como no caso de contos de advertência, como ‘Chapeuzinho Vermelho’, as histórias pertenciam sempre a um fundo de cultura popular, que os camponeses foram acumulando através dos séculos, com perdas notavelmente pequenas.”[3]
O maior obstáculo, para o historiador das mentalidades, na análise dos contos populares, é a impossibilidade de escutar as narrativas, como eram feitas pelos contadores. Por mais exata que sejam as copias escritas, elas não podem transmitir os efeitos que eram utilizados para dar vida às histórias e aos personagens. Todos esses efeitos ajudavam na transmissão de significados, mas todos escapam ao historiador. Portanto, para tornar o estudo dos contos populares viável, cabe ao historiador analisar relatos diferentes dos mesmos contos, para poder perceber a linha geral de cada um deles, pois a narrativa de um conto não é fixa, variando até com o mesmo contador; mas as estruturas e as ideias gerais se mantêm. Deste modo podemos separar as características peculiares de cada conto e compará-los para ver como eles se deram em solo francês. Por exemplo, enquanto os contos germânicos mantêm um tom de terror e fantasia, os contos franceses dão ênfase ao humor e à domesticidade, focando na esperteza e astúcia dos camponeses. Ou seja, para reconstruir a maneira como os camponeses franceses viam o mundo, nos tempos de Antigo Regime, é preciso se utilizar da história social, para analisar o que eles tinham em comum e que experiências partilhavam na vida cotidiana de suas aldeias.
Mesmo possuindo um pouco mais de liberdade que seus semelhantes ingleses, os camponeses franceses ainda “não podiam escapar a um sistema senhorial que lhes negava terras suficientes para alcançarem a independência econômica, e que lhes sugava qualquer excedente por eles produzido.”[4] Para a maioria dos camponeses a vida significava lutar para se manter acima da linha que separava os pobres dos indigentes. Era uma luta diária contra a morte. Devido ao grande índice de mortalidade e pobreza, podemos afirmar que a sociedade camponesa no início da França moderna era um mundo repleto de madrastas, órfãos, e sacrifícios, o que refletia no modo como seus contos eram narrados. Por exemplo, no conto “Pequeno Polegar”, os pais do protagonista, ao abandonarem ele e seus irmãos na floresta, tentavam enfrentar um problema pelo qual os camponeses dos séculos XVII e XVIII passaram várias vezes – os períodos de desastre demográfico. O “Pequeno Polegar” ainda ilustra um pensamento corrente entre os camponeses, onde os pequenos (os camponeses, pobres) sempre venciam os grandes (os senhores, ricos) pela astúcia e esperteza.
Darnton nos diz ainda que uma das questões que os camponeses se defrontavam em seus contos era a da subnutrição. “A procura de comida pode ser encontrada em quase todos eles [...]”.[5] Habitualmente, sempre que os personagens dos contos camponeses ganhavam direito a desejos, ou poderes mágicos, eles pediam por comida. A barriga cheia era prioridade para os heróis camponeses. Podemos perceber que na maioria dos contos a satisfação dos desejos se tornava um meio para sobrevivência, diante de tanta necessidade. Portanto, ao analisar as versões camponesas de Mamãe Ganso encontramos elementos do realismo social dos mesmos. Mostrando como se viva, os contos ajudavam na orientação dos camponeses, pois mapeavam os caminhos percorridos e mostravam que não se devia esperar nada além da ordem social. O significado histórico dos contos está em seu tom e em suas alusões. A maneira como os camponeses contavam suas histórias nos fornece pistas de como eles encaravam o mundo. Os contos diziam a eles como era o mundo, e ensinavam maneiras de enfrentá-lo. O autor conclui que “a velhacaria sempre joga o pequeno contra o grande, o pobre contra o rico, o desprivilegiado contra o poderoso. Estruturando as histórias dessa maneira, e sem explicitar o comentário social, a tradição oral proporcionou aos camponeses uma estratégia para lidar com seus inimigos, nos tempos do Antigo Regime.”[6] Em suma, os contos proporcionavam, aos camponeses, maneiras de lidar com uma sociedade rígida, mas não pretendiam subvertê-la.
No capítulo dois, “Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos na rua Saint-Séverin”, o autor busca interpretar a mentalidade e as tradições de um grupo de artesões urbanos. Para isso, Darnton analisa um massacre de gatos ocorrido em uma oficina na rua Saint-Séverin. Ele se utiliza da narrativa do operário Nicolas Contat, feita 20 anos após o ocorrido, para mostrar como os patrões dessa gráfica tratavam melhor seus gatos de estimação que aos próprios funcionários. Eis que “certa noite, os rapazes resolveram endireitar esse estado de coisa desigual. Léveillé, que tinha um talento extraordinário para a imitação, rastejou pelo telhado até chegar a uma área próxima ao quarto de dormir do patrão, e então começou a uivar e miar de maneira tão terrível que o burguês e sua mulher não pregaram os olhos. Depois de várias noites com esse tratamento, decidiram que estavam sendo enfeitiçados. Mas em vez de chamar o pároco – o mestre excepcionalmente devoto, e sua mulher excepcionalmente ligada ao seu confessor –, mandaram os aprendizes livrarem-se dos gatos. A patroa de a ordem, recomendando aos rapazes, acima de tudo, que evitassem assustar sua grise [sua gata de estimação]. Alegremente, Jerome e Léveillé, puseram-se a trabalhar, ajudados pelos assalariados. Armados com cabos de vassouras, barras da impressora e outros instrumentos de seu ofício, foram atrás de todos os gatos que conseguiram encontrar, a começar pela grise.[...] Atiraram sacos cheios de gatos semimortos no pátio. Depois, com todo o pessoal da oficina reunido em torno, encenaram um fingido julgamento, com guardas, um confessor e um executor público. Depois de considerarem os animais culpados e ministrar-lhes os últimos ritos, penduraram-nos em forcas improvisadas. Atraída pelas explosões de gargalhadas, a patroa chegou. [...] ”[7]
Podemos notar por esse relato, que o massacre de gatos foi visto como uma grande piada. E é tentando entender essa piada que Robert Darnton tentará entender os ingredientes da cultura artesanal do Antigo Regime. A primeira explicação que ocorreria da história de Contat, seria que o massacre de gatos foi visto como um ataque indireto ao patrão e sua esposa, devido ao ódio dos operários aos burgueses, pelo tratamento destinado a eles e aos gatos. Fazendo seu relato, Contat deixou claro a disparidade entre os universos do trabalhador e do patrão. Mas por que matar os gatos? O autor vai buscar essa resposta nos rituais e nos simbolismos populares.
Os ciclos rituais marcavam o calendário do homem no início da era moderna. O mais importante desses começava com o Carnaval, época onde os jovens se esbaldavam, viviam um período de folia, e terminavam com a Quaresma, onde a ordem e a submissão voltavam a reinar. Darnton nos diz que os gatos desempenhavam papéis importantes em alguns festivais de folia, e cita o exemplo da Borgonha, onde, enquanto zombavam de um marido enganado ou de outra vítima, os jovens passavam um gato de mão em mão, arrancando seu pelo para fazê-lo uivar. No ciclo de são João Batista, multidões faziam fogueiras e atiravam objetos com poder mágico para evitar desastres e para conseguirem boa sorte durante o ano, sendo os gatos, o objeto favorito. “Os parisienses gostavam de incinerar sacos cheios de gatos, enquanto os Courimauds de Saint-Chamond preferiam correr atrás de um gato em chamas, pelas ruas. Em partes da Borgonha e da Lorena, eles dançavam em torno de uma espécie de mastro em chamas ao qual estava amarrado um gato. Na região de Metz, queimavam uma dúzia de gatos de uma só vez, numa cesta em cima de uma fogueira.”[8]
Embora a prática variasse de acordo com os lugares, a ideia central era a mesma: “uma fogueira, gatos e uma aura de hilariante caça às bruxas.”[9] A tortura de animais, principalmente os gatos, era um divertimento popular em toda a Europa moderna. Quando os operários julgaram e enforcaram os gatos agiam dentro de uma tendência cultural. Antes de mais nada, os gatos eram símbolo de feitiçaria, e eram considerados agentes do demônio, ou simplesmente feiticeiras transformadas. Além disso, os gatos tinham poder oculto independentemente de sua associação com a feitiçaria, podendo impedir que o pão crescesse só de entrar em uma padaria, estragar a peixaria se cruzassem com um pescador, etc. Mas o principal campo de atuação dos gatos era o âmbito doméstico: para proteger uma casa, os franceses enterravam gatos vivos dentro das paredes, sem contar que os gatos sugeriam fertilidade e sexualidade.
No caso da gráfica, o motivo do massacre realmente foi a feitiçaria. Jerome e Léveillé não conseguiam dormir devido ao sabá que os gatos faziam durante a noite. Aproveitando da religiosidade e das supertições dos patrões, os aprendizes acusaram la grise de feiticeira, e acabaram transformando esse massacre numa rebelião subtendida à patroa. O julgamento foi uma grande encenação, onde os gatos representavam os burgueses, assim os operários julgavam seus patrões sem serem explícitos, evitando possíveis retaliações. Executando os gatos de maneira tão elaborada, condenavam assim toda a burguesia e o sistema, ridicularizando toda a ordem social existente. O massacre foi engraçado, pois assim, os operários conseguiam virar a mesa contra os burgueses, torando seu patrão vítima de um procedimento que ele próprio deflagrou. A piada funcionou, pois os operários, tiveram muita habilidade e conhecimento de simbolismo para insultar o patrão e sua mulher sem que esses entendessem.
No terceiro capítulo, nomeado “Um burguês organiza seu mundo: a cidade como texto”, Darnton utiliza a descrição de Montpellier feita, em 1768, por um cidadão anônimo e membro da burguesia local para explicar o que a vida urbana significava para ele. Ele começa a sua análise com a seguinte pergunta: o que é descrever um mundo? Não cabe a nós descobrir qual o verdadeiro aspecto de Montpellier em 1768, mas sim entender como esse burguês o observava. A partir da análise da Description, obra de nosso montpelliense, podemos visualizar três leituras da sociedade: a primeira é a apresentação de Montpellier, a partir de uma procissão de dignitários, através do qual representava toda a hierarquia da cidade, exagerando grosseiramente a importância de alguns grupos e se esquecendo inteiramente de outros; a segunda foi através da tradicional divisão em estados, fazendo jus ao caráter corporativo da sociedade, considerando apenas uma prestidigitação com cada categoria; e a terceira é uma descrição da cultura urbana, revelando a maneira de viver das pessoas, que acabava fazendo uma apologia ao estilo de vida burguês, que para ele significava “viver de rendas e anuidades, sem exercer qualquer profissão.”[10] Darnton considera que cada uma das três vias continham contradições e contradiziam umas as outras, surgindo aí a magnitude do documento e da visão de mundo de seu autor, que pela necessidade de entender esse mundo, descreveu durante centenas de páginas de seu livro a cidade em que vivia, sem conseguir encontrar a maneira adequada para fazer isso.
O capítulo quatro é intitulado como “Um inspetor de polícia organiza seus arquivos: a anatomia da república das letras”. Nele, Robert Darnton analisa os arquivos do policial Joseph d’Hémery, responsável por inspecionar o comércio livreiro, e que por isso acabava inspecionando os indivíduos responsáveis por escreverem os livros, os intelectuais. D’Hémery acabou investigando tantos autores, que suas anotações hoje constituem um censo literário sobre o período, contendo dos mais famosos philosophes, aos mais obscuros escritores. Esses arquivos permitem que se esboce um perfil do intelectual no apogeu do Iluminismo, precisamente como os intelectuais começavam a surgir como novo grupo social, e revelam como uma autoridade policial tentava entender tal fenômeno. O autor nos diz que d’Hémery tinha um conhecimento mais íntimo do universo das letras no século XVIII do que qualquer historiador pode sonhar em obter. Analisando seus arquivos podemos perceber que por trás de muitas carreiras literárias, se encontrava um burocrata real ambicioso e inteligente.
A elaboração de um relatório policial ocorria dentro de uma estrutura de significados. As análises que d’Hémery fazia dos autores e dos livros podem ser observados como um certo significado geral, pois pertencia a um homem comum que a compartilhava com os homens ao seu redor. Referindo-se aos escritores como “rapazes”, o policial nos permite ver uma certa marginalização dos mesmos, pois o termo “rapaz” assim significava. Pode-se perceber também o tamanho do medo que os literários disseminavam na sociedade, visto que muitos foram presos devido suas obras conterem ameaça ao reino ou a religião.
“Em resumo, d’Hémery avaliou o mundo literário com simpatia, humor e apreciação da própria literatura. Partilhava alguns dos valores em que acreditavam as pessoas sob sua vigilância, mas não vacilava em sua lealdade à Igreja e ao Estado. Nada poderia ser mais anacrônico que retratá-lo como um policial moderno ou interpretar seu trabalho policial como uma caça às bruxas. Na realidade, sua atividade consiste em algo menos familiar e mais interessante: o recolhimento de informações na era do Absolutismo.”[11] Ou seja, a partir das anotações de d’Hémery podemos ter uma panorama das obras criadas pelos intelectuais deste período, assim como a recepção das mesmas, na maioria das vezes vistas como subversiva ao reino e à religião.
O quinto capítulo, o qual o autor chamou “Os filósofos podam a árvore do conhecimento: a estratégia epistemológica da Encyclopédie”, busca entender como era classificado epistemologicamente no texto-chave do Iluminismo, o Discours préliminaire da Encyclopédie. Darnton começa o capítulo analisando a classificação que damos para as coisas do mundo e conclui que assim as classificamos porque já estão estabelecidas. Mesmo que possa parecer estranho em alguns casos, não contestamos a ordem presente. A classificação seria um exercício de poder. Portanto, Diderot e d’Alembert foram bastante ousados ao desmancharem a ordem antiga do conhecimento e traçarem novos caminhos entre o que era conhecido e o que era desconhecido. “A própria tentativa de impor uma nova ordem ao mundo tornou os enciclopedistas conscientes das arbitrariedades de toda ordenação. O que um filósofo unira, outro poderia desunir.”[12]
Diderot e d’Alembert desejavam enraizar o conhecimento na epistemologia. Diderot, por exemplo, insistiu na originalidade do “ramo filosófico, que é o mais extenso, o mais importante de nosso sistema e sobre o qual nada pode ser encontrado no chanceler Bacon.” Na Encyclopédie, a filosofia não era um ramo da árvore do conhecimento, mas sim o tronco principal, submetendo a religião à filosofia, descristianizando-a.
Assim sendo, apesar de suas diferenças, os filósofos avançavam em uma mesma direção, varrendo toda a superstição que estava em seu caminho e carregando o Iluminismo até o presente, a própria Encyclopédie. Em suma, nessa obra os filósofos além de demonstravam que não havia conhecimento legítimo algum além dos ramos da árvore do conhecimento, e de se elevarem à categoria de gens de lettres, ainda modelavam o conhecimento de modo que o tirava do clero e colocava-o nas mãos dos intelectuais iluministas. Para o autor, “O triunfo final desta estratégia veio com a secularização da educação e o surgimento das modernas disciplinas escolares, durante o século XIX.”[13]
No sexto capítulo, “Os leitores respondem a Rousseau: a fabricação de sensibilidade romântica”, Darnton “mostra como a ruptura de Rousseau com os enciclopedistas abriu um novo caminho de pensamento e sentimento, que pode ser apreciado relendo-se Rousseau com a perspectiva de seus leitores.”[14] É importante, ao analisar, perceber que os franceses do século XVIII liam de maneira diferente do que se é lido hoje em dia. Não se levando em consideração tal fato, cometeríamos um grande equívoco. Para analisar tão mentalidade, o autor se utiliza de cartas do burguês Jean Ranson enviadas à Société Typographique de Neuchâtel (STN), importante editora suíça de livros franceses no período pré-revolucionário. Nessas cartas, Ranson fala sobre seus interesses literários e sobre sua vida particular. Para compreender com Ranson lia, o autor faz uma analise de como a compreensão da leitura era ensinada nas escolas francesas do século XVIII, se utilizando do manual de Viard.
Mas, é através de Rousseau, que podemos entender melhor como se dava essa leitura. Ele “orientava, também, a leitura de seus leitores. Mostrava-lhes como abordar seus livros. Guiava-os dentro dos textos, orientava-os com sua retórica e os fazia desempenhar um certo papel.”[15] O leitor ideal de Rousseau, deveria ser capaz de se despojar das convenções literárias, bem como dos preconceitos da sociedade, para poder participar da história como o autor queria. Como em suas cartas Ranson se declarava grande fã de Rousseau, podemos ter uma ideia de como ele praticava a leitura. A grande comoção causada pelo livro La Nouvelle Héloïse, em 1761, deixa claro a nova situação retórica, tendo o leitor e escritor comunicando-se através da página impressa, cada um deles assumindo a forma ideal imaginada no texto. A qualidade da leitura mudou no fim do Antigo Regime entre um público amplo, graças, principalmente, a Rousseau. Ranson serve de testemunha dessa nova relação entre leitor, palavra escrita e autor, fato notável no modo que falava sobre Rousseau: l’Ami Jean-Jacques.
Numa tentativa de sintetizar o universo simbólico do Antigo Regime, Robert Darnton escreveu seu livro de maneira brilhante, prendendo a atenção do autor, e explorando materiais “não convencionais”, mas cheios de historicidade, fazendo com que seu leitor, se sinta, como um camponês, um policial ou um filósofo francês.
BIBLIOGRAFIA
DARNTON, Robert. O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa. – São Paulo: Graal, 2011.

IMAGEM: http://www.sobrelivros.com.br/imagens/capas/o-grande-massacre-de-gatos.jpg



[1] DARNTON, Robert. O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa. – São Paulo: Graal, 2011. p. 14
[2] Idem, p. 13-14
[3] Idem, p. 31-32
[4] Idem, p. 40
[5] Idem, p.51
[6] Idem, p.83
[7] Idem, p.106-107
[8] Idem, p.116
[9] Idem, p.116
[10] Idem, p.167
[11] Idem, p. 207
[12] Idem, p. 251
[13] Idem, p. 270
[14] Idem, p. 16
[15] Idem, p. 294

3 comentários:

  1. Parabéns Rafael. Uma resenha muito bem feita! Abraços de Cabo Frio.

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  2. Estimado Rafael, segue trecho traduzido por mim de sua resenha e citado em um recente trabalho no meu Curso de Doutorado, na Argentina:

    En un intento de sintetizar el universo simbólico del Antiguo Régimen, Robert Darnton escribió su libro brillantemente, sosteniendo la atención del lector y explorando materiales "no convencionales", pero llenos de historicidad, haciendo que su lector se sienta como un campesino, un policía o un filósofo francés (Oliveira, 2013).

    Abraços!

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